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Agnaldo Lima


sábado, 3 de novembro de 2012

A Irrecuperabilidade do Tempo by Agnaldo Lima







 fotografia & texto © agnaldo lima




A Irrecuperabilidade do Tempo
 
Agnaldo Lima
 
Somente tarde, muito tarde, constatamos tudo o que deixamos incompleto, pelo caminho, na falsa esperança de, um dia, voltarmos e consertarmos tudo.  Como se a juventude fosse eterna e acreditássemos que, somente os outros envelhecessem, dando-nos o status de príncipes da longevidade, onde tudo fosse permitido; até mesmo esquecer aqueles que nos amaram e que viam em nós os seus eternos cúmplices nessa longa viagem, através da sinuosidade do tempo.
 
No ímpeto dessa enganosa juventude, colocamos em suas bocas, deliciosos sabores, para, mais tarde, serem transformados no sabor de coisas perdidas. Enquanto isso, na nossa boca acumulávamos um travo de esperança arquivada no futuro, cuja chave ficaria eternamente perdida no passado. Nem sequer atentamos para as furtivas lágrimas que enevoavam os seus olhares, ante a capa do nosso olhar egocêntrico e precocemente preso além do presente.
 
Nosso álibe seria a sensação de segurança de um dia voltarmos e, num passe de mágica, recuperarmos o beijo não dado, o aconchego omitido, a palavra de redenção não proferida, ou o abraço que nos resgatasse da solidão.
 
Certamente não tínhamos a consciência de que o tempo transformar-se-ia num pavoroso iceberg e tal um gigante, agiria como sentinela, não nos deixando voltar! E, obedecendo à trágica lei do caminho sem volta, anestesiaria a nossa consciência e, somente muito depois, descobriríamos, com clareza e remorso, que alguns já haviam partido e que outros já não reconheceriam a nossa voz, nem a neve que se acumularia sobre os nossos cabelos. Assim sendo, quando esse momento chegasse, restaria, apenas, sentir na alma o ardor incómodo da chama que corrói e o longínquo sabor dos beijos que tivemos, se é que assim o fora.
 
Para o nosso consolo, o qual não apasiguaria a nossa dor, outros viriam depois de nós e, palmilhariam o nosso mesmo trajecto, reproduzindo os nossos mesmos gestos, numa interminável repetição de códigos milenares, os quais compunham a herança que tivemos e que, indubitavelmente haveríamos de deixar. Eles sentiriam os mesmos cheiros que sentimos, chorariam as mesmas lágrimas que choramos e se consumiriam de prazer no vigor do mesmo riso que tivemos. E num dia, lá bem distante, sentiriam o desejo de, também, voltar e, como nós, olhariam indefesos para trás e constatariam, com saudades, que o seu tempo acabou.




 
 

2 comentários:

  1. O relógio não pára...

    Antes que o tempo se acabe...deixo um beijo.

    Sónia

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  2. Obrigado, Sónia!
    Um beijinho!
    Agnaldo Lima

    ResponderEliminar

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