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Criado com o intuito de partilhar momentos de criatividade, numa vertente poético-fotográfica, este espaço é aberto a todos os visitantes interessados no resultado que a metamorfose das emoções possibilita.

Atrevo-me, pois, a pendurar nas "paredes" desta minha "sala de visitas", o que constitui o acervo da minha galeria de lembranças.

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Agnaldo Lima


sábado, 17 de novembro de 2012

Os Castrados de Deus






 fotografia & texto © agnaldo lima




Os Castrados de Deus

Viver no mundo moderno…

Vestimo-nos com peles de cordeiros, e passeamos, garbosos, sobre as próprias carcaças, carregando, iguais a hienas, um riso sarcástico no canto das bocas.

Por inveja, símbolo da nossa incapacidade, aniquilamos, impiedosamente, o outro, naquilo que ele tem de mais precioso. Transformamo-nos em morcegos e sugamos-lhe o sangue, enquanto lhe sopramos a ferida para que ele não se aperceba do sangue que perde; assim, podemos voltar na noite seguinte, com a lingua afiada e despida de remorsos. 

Viver no mundo moderno exige esforço, rapidez e coragem para enfrentar o ritual de morrermos, lentamente, todos os dias. Da mesma forma, passiva e resignada, como o cordeiro recebe a sua morte, aceitamos o ritual da transformação e, assumimos, sem receio, a perda de tudo o que veio antes, como base para a maturidade que tanto nos exige.

Tudo é tão rápido, tão efêmero... nada cria raízes! Mal começamos a nos acostumar com o novo, algo mais novo aparece, destronando o objecto do nosso desejo. As relações sociais e afectivas, de forma sutil, vão sendo, também, devastadas pelo contágio da cultura do efêmero, do temporal.

Tornamo-nos descartáveis, da mesma forma em que descartamos os objectos que criamos. Descartar tornou-se um vício em torno do qual quase todos se confraternizam; é a febre de um momento que há muito começou e se perpetua à cada dia.

Descartamos as pessoas, pois é muito trabalhoso devolver-lhes o amor com o qual nos alimenta e, por isso, inventamos desculpas para nos livrar do que achamos chato, cansativo, monótono e incómodo.

Numa postura insolente de quem tudo sabe, de quem conhece todas as respostas, descartamos o outro à busca de um ilusório, de um egoísta e passageiro estado de paz.

Vivemos à busca do amor, da amizade, do companheirismo e quando isso acontece destruimos tudo, embriagados que ficamos pelo medo de sermos felizes. E, assim, vamos, ao longo da vida, desenvolvendo projectos inacabados. Depois, no meio da noite, choramos, sozinhos, frente ao espelho e descobrimos, enfim, a amplitude da nossa orfandade. 

Para compensar, os descartes que fazemos, enganamo-nos com o jogo do tudo reciclar, pois fica bem na fotografia, a pseudo preocupação com o destino do planeta. Mas, como temos memória curta, facilmente esquecemos de que somos o planeta; um planeta constituído por ilhas flutuantes que, ora se tocam, ora se repelem, umas mais selvagens que outras, mas todas prisioneiras do mesmo medo que as mantém solitárias.

Reciclamos tudo, mas não reciclamos o amor, não reciclamos a amizade, não reciclamos o companheirismo e todos os valores primários que nos colocaram sempre e, de forma errónea, à frente dos outros animais.

As oportunidades nem sempre se repetem, e, quando acontece, nem sempre nos encontram no mesmo lugar, disponíveis  a aceitá-las. Por isso, deixamos passar tantos momentos únicos, os quais só nos enriqueceriam, movidos que somos pelo absurdo medo, pela tacanha crença de sermos diferentes, numa frágil certeza de cada um ser um personagem único e superior escolhido por algum deus.

Quase ninguém está imune a essa doença que se propaga, de geração em geração, como um castigo dictado por deuses arrependidos da obra que criaram. Quase ninguém escapa à essa epidemia, à essa tatuagem talhada na carne e no espírito, como se fora um desígnio genético.

O mundo moderno destina-se a quem é jovem, belo, rico e sem defeitos aparentemente provocadores de incómodo social. A matéria humana que o alimenta, já nasce pronta. É a geração do “prêt-à-porter”. A selecção é impiedosa, feita com requinte. E os destituídos de tais predicados continuarão a rastejar, iguais a vermes, em busca de um pouco de sol.

Quantas ilhas flutuantes tiveram as suas almas assassinadas no florir das suas existências, por outras almas sedentas de prazer e famintas de maldade?... Quantas outras ilhas continuarão a ser decepadas, decapitadas, estranguladas, bombardeadas e extintas por carrascos mascarados de falsos sorrisos e palavras doces, bem intencionadas?...

Caminhamos, sem rumo, por ruas indecisas, levando, cada um, a sua carcaça anestesiada, tal sarcófago, em cujo interior guarda as cinzas do que a sua alma já fora. 

Somos as flutuantes ilhas castradas de Deus, castradas pelas próprias irmãs nascidas da mesma fornalha.


 

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