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Criado com o intuito de partilhar momentos de criatividade, numa vertente poético-fotográfica, este espaço é aberto a todos os visitantes interessados no resultado que a metamorfose das emoções possibilita.

Atrevo-me, pois, a pendurar nas "paredes" desta minha "sala de visitas", o que constitui o acervo da minha galeria de lembranças.

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Agnaldo Lima


sábado, 9 de junho de 2012

IV - fragmentos






fotografia © agnaldo lima


fragmentos




a irrecuperabilidade do tempo

somente tarde, muito tarde, constatamos o que deixamos pelo caminho, na falsa esperança de, um dia, voltar e consertar tudo. é como se a juventude fosse eterna e acreditássemos que, somente os outros envelheceriam, dando-nos o status de príncipes da longevidade, onde tudo fosse permitido; até mesmo esquecer aqueles que nos amaram e que viam em nós os seus eternos cúmplices nessa longa viagem, através desse sinuoso trilho a que chamamos de tempo.  no ímpeto da nossa juventude, colocamos em suas bocas, deliciosos sabores, para, mais tarde, serem transformados no sabor de coisas perdidas, enquanto na nossa boca ficava um travo de esperança arquivada no futuro. nem sequer atentamos para as furtivas lágrimas que enevoavam os seus olhos, enquanto sob a capa do egocentrismo, nos escondíamos, seguros de que um dia voltaríamos e, num passe de mágica, recuperaríamos o beijo não dado, o aconchego omitido, a palavra de redenção não proferida, ou o abraço que nos resgatasse da solidão...  
certamente não tínhamos a consciência de que o tempo transformar-se-ia num pavoroso iceberg e tal um gigante, agiria como sentinela, não nos deixando mais voltar! simplesmente, obedecendo à trágica lei do caminho sem volta, anestesiaria a nossa consciência, para depois mostrar-nos com clareza e crueldade que uns já haviam partido e que outros já não reconheceriam a nossa voz, nem a neve que acumulamos sobre os nossos cabelos. assim sendo, quando esse momento chegasse, restaria, apenas, sentir na alma o ardor incómodo da chama que corrói e o longínquo sabor dos beijos que tivemos, se é que assim o fora. para o nosso consolo, o qual não apasiguaria a nossa dor, outros viriam depois de nós e, palmilhariam o nosso mesmo trajecto, reproduzindo os nossos mesmos gestos, numa interminável repetição de códigos milenares, os quais compunham a herança que tivemos e que, indubitavelmente haveríamos de deixar. eles sentiriam os mesmos cheiros que sentimos, chorariam as mesmas lágrimas que choramos e se consumiriam de prazer no vigor do mesmo riso que tivemos. e num dia, lá bem distante, sentiriam o desejo de, também, voltar e, como nós, olhariam indefesos para trás e constatariam, com saudades, que o seu tempo acabou.

texto © agnaldo lima





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